sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nunca me esqueças




"A alma resiste muito mais facilmente às mais vivas dores do que à tristeza prolongada " Jean Jacques Rosseau

Respiro. Sentia-me tão frustrada com tudo, que o meu primeiro instinto foi encher os pulmões de ar e depois esvaziá-los lentamente, como um vento leve mas enternecedor. Estava petreficada, nunca tinha imaginado que ía ser assim, doloroso. Os meus primeiros pensamentos foram debruçar-me sobre os meus joelhos, esconder a cara e desejar voltar com o tempo atrás, queria tanto poder remediar-me. No entanto uma força vinda de algum sítio fez-me sentir forte e capaz de enfrentar o que tinha pela frente, sentia-me de repente viva e faminta por novas aventuras, não sei, não posso explicar o que aconteceu , sei que o meu olfacto estava mais apurado, conseguia sentir o perfume das túlipas a baloiçar pelos campos verdejantes em que me encontrava, conseguia ouvir o som dos pássaros a bater as asas meticulosamente, conseguia ver as coisas mais além do que elas são. Fechei os olhos e por momentos desejei não voltar a sentir tão estranha sensação, a verdade é que os meus desejos não foram ouvidos e quando os abri parecia estar num novo mundo, mais vivo, mais divertido, mais bondoso.
Tudo era estranho, que aconteceu? onde estou? eram as perguntas que fazia a mim mesma na tentativa que uma voz dentro de mim respondesse e me deixasse mais confortável. Durante alguns instantes não queria admitir que estava com medo mas depois de algum tempo comecei a perceber que estava sozinha e não tinha para onde ir. Por um lado achei estranho, estava no mesmo campo verdejante em que me encontrava antes de fechar os olhos, conseguia sentir o mesmo perfume das túlipas e o mesmo barulho das asas dos pássaros a bater, mas no fundo estava perdida; não sabia para onde ir, parecia estar noutro mundo paralelo ao meu, mais bonito e charmoso que o antigo. Eu gostava, sabia que no fundo me sentia em casa.
Passado algum tempo de tanto andar, um pouco desnorteada, avistei ao longe um vulto, não me era estranho, com cabelos longos e castanhos, o seu corpo era forte e musculado e os seus olhos eram de um verde mágico. A verdade é que corria na minha direcção de uma maneira familiar, aliás parecia conhecer-me. Sem pensar olhei para os lados e para trás apenas para ter a certeza que não estava ninguém atrás de mim, ninguém estava. Admito que durante segundos não queria que aquelas gestos fossem para mim, estava a gostar de estar sozinha. Quanto mais perto ficava mais me parecia aquela cara familiar e quando chegou ao pé de mim, olhou-me nos olhos como se desejasse hipnotizar-me, colocou uma cara ternerosa e disse:
"Meu amor, finalmente vieste ao mundo, todas as frustações e males fizeram-te cegar e fizeram-te não ver as coisas boas que acontecem à tua volta. Agora que estás boa e destruistes todos os desagrados vem comigo e vamos disfrutar das coisas boas que o mundo tem para nos dar. Não percas mais tempo com tristezas, tiveste demasiado tempo encurralada no teu próprio mudo cizento e obscuro. Vem."
"Então é isso? Estive presa a mim própria durante tanto tempo?"
Então com todo o amor que alguém me podia dar, com uma voz grossa mas omnipotente disse:
"Isso já não importa, o passado não faz parte do presente, nem o presente relaciona-se com o futuro, o que importa é o agora. E agora eu estou aqui contigo"
Foi então que senti o que verdadeiramente era o mundo, já não sabia como era, tinha-me esquecido.
Agora sei e tenho a certeza que estava em casa, a minha eterna e doce casa.

5 comentários: