sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Voos

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso" Fernando Pessoa 


Como seria  o mundo sem viagens?
Viajo, e percorro montanhas abençoadas pela alegria, viajo e voo por vales de tristezas, viajo e corro por planaltos de impaciências. Mas estas são viagens, não confundas com mudanças temporárias de território, não, estas são viagens, as viagens. Acontecem todos os dias, quando a tua alma está no culminar da serenidade, quando a tua alegria e esperança se unem como ferro, quando o amor e o ódio deixam de ser o oposto tão próximo e passam a um sentimento mútuo, quando a mentira e a lealdade fazem as pazes e decidem caminhar lado a lado, quando a verdade és tu e mais ninguém. E todos os dias, todos, sem excepção, por mais pequeno que seja o momento tu sentes, tal e qual. E neste embrião de sentimentos, tu és o primeiro da fila, aquele que comanda e faz interagir todos os outros, aquele que elabora as regras e as proibições, aquele que erra e que desfaz os sentimentos, porque nesta viagem tu e só tu és o responsável para que tudo aconteça.
Recordo bem a minha primeira viagem, foi tão calma, serena... Durou pouco, mas todas duram, no entanto foi o suficiente para me fazer enternecer as dores e angústias que se faziam sentir por todo o corpo. Comecei por fechar os olhos involuntariamente, eu não queria, mas houve algo mais forte, que me tentou a fazê-lo e eu fiz simplesmente fiz, sabia que iria ser algo bom, e não me enganei, não, de maneira alguma. Mal os fechei, logo uma onda de escuridão sobrepôs-se no meu pensamento, queria abrir os olhos, mas não era capaz, estavam não sei como, presos, mas não te assustes são só as atribulações de voo normais destas viagens, porque antes de lá chegares é arduo o caminho pelo qual tens que passar.
Passado pouco tempo a onda fez-se desaparecer naquele céu negro com pequenos foscos de luz e começou a parecer algo, não estava nitido mas logo se tornou numa forma cada vez mais concreta e era bonita, tão bonita. Mas que viagem! Estava num mundo, diferente, sem problemas e pessoas que só desejam que quebremos a nossa corrente tão organizada de sentimentos, sem responsabilidades duradouras, sem fortes maldades provocadas por todo o tipo de protestos da natureza, sem nada disso. Ali, tudo era bom, tudo era tão bom... Lembro-me tão bem, tudo era puro, respirava-se magia, expirava-se alegria, corria-se por cima de algodão e nadávamos em veludo azul, era tudo tão perfeito. Tudo fazia sentido, tudo tinha um lugar pronto para ocupar naquele mundo, talvez, seria aquele sitio um "mundo"? Não sei, ainda não sei, talvez seja esse o objectivo de tantas viagens, talvez seja essa a razão para a qual as fazemos, talvez haja algo para descobrir ainda nunca antes explorado.
Porque estas viagens não incluem aqueles que observam ao pormenor e invadem  a circunstância querendo encontrar explicação de uma maneira dolorosa, porque estas viagens não incluem nada disso, elas servem para ver as coisas belas, não te esforces por ver os pormenores, feios e bafientos, não te esforces, de que vale? Continua tudo com a mesma superfície polida até ao mais minúsculo ponto, para fazer de tudo um encantamento, um sonho.
Como seria  o mundo sem viagens? A resposta é simples, como seria o mundo sem ti?

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