segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Indiscritivelmente árduo

Árduo sentimento
sem pudor, sem hesitação.
Alastras a toda a gente
sem qualquer preocupação.

Árduas palavras
ditas e escritas
por quem não sabe o que é
este sentimento de varão
que pratica a dor sem aparente razão.

Árduas acções
calibradas por demónios,
realizadas por humanos,
culpadas por quem a sátira não é paixão.

Árduo tempo
passado como furacões,
lembrado como brisas,
esquecido como tufões.

Árduos sonhos
avistados no céu,
perdidos na escuridão,
enterrados no coração.

Árduo poema
sem regra nem lema,
que faz lembrar
o quão a vida é um dilema.

Audácia incrédula

"Muitas vezes é preciso mais coragem para enfrentar as futilidades do que para lutar contra abusos graves" Multatuli


Um dia olhava para cima, tudo aquilo me pareciam montanhas, prontas para serem escaladas, ansiosas para subirem pelas suas encostas, difíceis no que se entenda por precisão... Tudo aquilo me parecia difícil e árduo, tudo era frágil mas ao mesmo tempo forte o suficiente para me suportar... Afinal tudo parecia, mas nada o era...
E como tudo o que parece, naquele momento estava assustada, infiltrada nos meus medos e indecisa nas acções. Estava refugiada em mim própria, não queria alcançar, tinha medo, não importa a circunstância, tudo parecia e eu pensava que era assim que devia ser. Indiscreta ao que se passava lá fora,  fora do meu mundo, das minhas ideias, decisões, medos, eu sentia-me frágil, capaz de ser levada pela mais suave brisa, no entanto o mais forte trovão, jamais o conseguiria. Porque por vezes tudo é assim, ou pelo menos parece, que as coisas mais magnificas são aquelas que destroem, e as mais medíocres, aquelas que são destruídas sem pena ou paixão, afinal tudo parece mas nada o é . Porque as coisas mais frágeis são aquelas que aguentam uma tempestade ou ainda um tufão, e as coisas mais poderosas ,um simples abanão era o suficiente para destruir tudo aquilo que até certo ponto parece mas não o é.
Chega de parecenças e nomeações ignorantes, chega de ideias que parecem culminantes, chega de isso tudo, porque tudo o que parece nada o é, então aquilo que determinas e julgas é um ponto vazio no espaço profundo. Porque tudo parece mas nada o é, como és tu sozinho sem teres algo onde apoiar o pé?
Porque como tudo o que deveras parece, também o caminho para o triunfo parece custar, parece estar no pico daquelas montanhas escarpadas e quase como sem fim, mas, como tudo o que há neste mundo, o que parece nada o é, e por vezes o atalho mais próximo torna-se a estrada mais longa,  e o caminho mais difícil torna-se aquele em que um dia nos orgulhamos de ter passado sem qualquer medo e nesse dia é tempo de dizer:
"Não te preocupes, vais conseguir"
"Tenho medo"
"Olha para o mundo, vê como ele te faz sentir"
"Pequeno"
"Agora olha para dentro de ti, e verás o quão grande és, porque com toda a certeza  eu sei e juro-te que és capaz, juro-te porque tudo o que parece nada o é, e tu és tal e qual assim."

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Voos

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso" Fernando Pessoa 


Como seria  o mundo sem viagens?
Viajo, e percorro montanhas abençoadas pela alegria, viajo e voo por vales de tristezas, viajo e corro por planaltos de impaciências. Mas estas são viagens, não confundas com mudanças temporárias de território, não, estas são viagens, as viagens. Acontecem todos os dias, quando a tua alma está no culminar da serenidade, quando a tua alegria e esperança se unem como ferro, quando o amor e o ódio deixam de ser o oposto tão próximo e passam a um sentimento mútuo, quando a mentira e a lealdade fazem as pazes e decidem caminhar lado a lado, quando a verdade és tu e mais ninguém. E todos os dias, todos, sem excepção, por mais pequeno que seja o momento tu sentes, tal e qual. E neste embrião de sentimentos, tu és o primeiro da fila, aquele que comanda e faz interagir todos os outros, aquele que elabora as regras e as proibições, aquele que erra e que desfaz os sentimentos, porque nesta viagem tu e só tu és o responsável para que tudo aconteça.
Recordo bem a minha primeira viagem, foi tão calma, serena... Durou pouco, mas todas duram, no entanto foi o suficiente para me fazer enternecer as dores e angústias que se faziam sentir por todo o corpo. Comecei por fechar os olhos involuntariamente, eu não queria, mas houve algo mais forte, que me tentou a fazê-lo e eu fiz simplesmente fiz, sabia que iria ser algo bom, e não me enganei, não, de maneira alguma. Mal os fechei, logo uma onda de escuridão sobrepôs-se no meu pensamento, queria abrir os olhos, mas não era capaz, estavam não sei como, presos, mas não te assustes são só as atribulações de voo normais destas viagens, porque antes de lá chegares é arduo o caminho pelo qual tens que passar.
Passado pouco tempo a onda fez-se desaparecer naquele céu negro com pequenos foscos de luz e começou a parecer algo, não estava nitido mas logo se tornou numa forma cada vez mais concreta e era bonita, tão bonita. Mas que viagem! Estava num mundo, diferente, sem problemas e pessoas que só desejam que quebremos a nossa corrente tão organizada de sentimentos, sem responsabilidades duradouras, sem fortes maldades provocadas por todo o tipo de protestos da natureza, sem nada disso. Ali, tudo era bom, tudo era tão bom... Lembro-me tão bem, tudo era puro, respirava-se magia, expirava-se alegria, corria-se por cima de algodão e nadávamos em veludo azul, era tudo tão perfeito. Tudo fazia sentido, tudo tinha um lugar pronto para ocupar naquele mundo, talvez, seria aquele sitio um "mundo"? Não sei, ainda não sei, talvez seja esse o objectivo de tantas viagens, talvez seja essa a razão para a qual as fazemos, talvez haja algo para descobrir ainda nunca antes explorado.
Porque estas viagens não incluem aqueles que observam ao pormenor e invadem  a circunstância querendo encontrar explicação de uma maneira dolorosa, porque estas viagens não incluem nada disso, elas servem para ver as coisas belas, não te esforces por ver os pormenores, feios e bafientos, não te esforces, de que vale? Continua tudo com a mesma superfície polida até ao mais minúsculo ponto, para fazer de tudo um encantamento, um sonho.
Como seria  o mundo sem viagens? A resposta é simples, como seria o mundo sem ti?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desestimentos

"Perde-se a vida quando a pretendemos resgatar à custa de demasiadas preocupações" Shakespeare

Caí. Tinha sido depois do Sol se pôr por detrás da encosta, que eu caí. Fiquei com medo, nunca tinha caído assim, sozinha, sempre foi com ajuda de alguém ou por uma acção mal realizada; e era assim que eu costumava cair: por momentos mal passados ou por desejos de pessoas arduamente atormentados. E desta vez não tinha sido assim, as minhas pernas tinham-se debruçado sobre si próprias, sentia-as dormentes, sem força, não consegui suportar...Senti um fardo enorme sobre mim, um daqueles pesados e insuportáveis, difíceis de separar. A minha alma estava rancorosa e os meus pensamentos dolorosos, como pontas de espada a tentarem-nos despedaçar. Eu caí... e sabia bem como:
Tinha sido depois do Sol se pôr por detrás da encosta , estavas comigo, e eu sentia-me bem. Cada minuto que passava, era mais um que te admirava; cada palavra dita era menos um espaço compreendido entre nós; cada olhar, cada movimento, era mais uma história para contar. E eu sentia-me bem, era tudo o que eu queria.
Estávamos sentados naquele banco de jardim, sabes? Aquele banco com mil e uma histórias para contar, cada uma com pormenores diferentes, únicos, que para sempre irei recordar. Estávamos a conversar e eu sentia-me bem ...
Ouvia-te com atenção, cada ruído que se opunha eu conseguia neutralizar, simplesmente para deixar entrar a tua voz nos meus ouvidos, que logo corria a encontrar o melhor refúgio, bem escondido no meu coração. Cada palavra que dizias era traduzida em melodias de canção. Por momentos cheguei a pensar que estava a sonhar, mas estavas mesmo ali, e eu sentia-me bem contigo.
Estávamos a conversar, simplesmente a conversar, no entanto, a força que se estabelecia entre nós era maior que todas as outras exercidas em qualquer lugar; e notava-se, estava a crescer...Tinha começado como uma criança, pequena e infantil, prematura, facilmente destrutível agora crescia e crescia, tornando-se forte e espessa, como correntes de ferro. Era uma força intensa e eu sentia-me bem com ela.
Tinha sido depois do Sol se pôr por detrás da encosta, que me perguntaste...
"Prometes?"
"O quê?"
"Que tomas conta de mim?"
Sentia-me bem, sentia-me tão bem , mas de repente vi tudo a fugir à minha frente, todos os momentos, todas as palavras, toda a força... senti perder tudo, fiquei frágil, parecia ter um fardo enorme sobre mim, uma responsabilidade maior que qualquer uma que já tive, e caí...
Tinha sido depois do Sol de pôr por detrás da encosta, que eu deixei escapar por entre mãos uma oportunidade que nunca mais tive, uma daquelas que só se tem uma vez na vida, e eu desperdicei-a.
Não deixes tu também desperdiçar a que te virá um dia, aproveita-a e faz com que alguém se sinta bem ao pé de ti. Não caias, persiste ; não fugas, pára e corre para o lado oposto e acredita: irás-te sentir tão bem.
Um dia também tu vais ter um momento depois do sol se pôr por detrás de uma encosta, faz com que ele dure e não o esqueças. Um dia também vais cair, mas promete-me que não seja aqui, promete-me que o fazes de consciência pura e voluntariamente, promete-me que te vais sentir bem a fazê-lo. Prometes?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Frequências do coração


"Olho por olho, e o mundo acabará cego" Gandhi

As ondas não são mais que chocalhos violentamente ruidosos, provocados pela insatisfação da vida quotidiana de cada ser que se movimenta, seja rápida ou lentamente.
Guardo palavras, que logo tornei em recordações de um sábio marinheiro, que me disse tão convictamente como um Deus à vinda na Terra, que as ondas não eram mais que o mar zangado e que facilmente se acalmavam com uma simples e única canção "Bem eu sei, porque tormentas passei nestes mares de aflição, zangados e agitados por a sua natureza interior estar a ser destruída sem aparente razão. Bem eu sei, o quanto passei, para o embalar e o por a dormir tal como a um bebé num berço reforçado por longas e finas camadas de algodão. Bem eu sei...". Soube tempos depois que este respeitado marinheiro tinha doado o ser coração ao mar ao o tentar acalmar.
E perante tais palavras fiquei muda e hirta ao silêncio, e por mais distante que fosse, conseguia ouvi-las a embaterem nas rochas, tentando aclamar a uma revolução que já sabiam perdida.
A notícia tinha pesado no meu coração. Foi aí que percebi que as ondas e marés não são mais que lugares de guerra neste mundo onde cada um tem um lugar de destaque no que cabe ao armamento e mortes sem razão. Foi aí que percebi que o mundo é um oceano em plena tempestade tropical, e  foi aí que percebi: ondas e marés não são mais que os nossos sentimentos em rebelião, tentando cada um ocupar o trono que manipula o nosso coração.
Escuta as ondas a chocarem, escuta o som destas a gritarem, escuta..., repara, sente... não queiras fazer parte desta batalha, sem destino e prontidão. Não queiras entregar o teu corpo a pessoas que só o usam como servo de escravidão, não queiras manipular a mente dos outros para fins menos sãos, não queiras lutar pelo lugar do trono naquele teu mundo onde não há aparente solidão, simplesmente não queiras..., não queiras nada disto... e verás que este é a receita certa para embalar as ondas e marés altas do teu coração.

(Im)Perfeição

"E de todas é uma loucura sem par, este mundo querer-se endireitar" Molière

Penso, e sei que tudo é assim, e mesmo sem pensar sei que tudo acaba aqui. Penso nas voltas que isto dá e nas formas que isto leva. Penso no que vai errar e nas coisas certas que o vento facilmente leva. Penso e vejo, observo, calculo, que isto nunca vai continuar assim.  Porque pensar não é mais que deslumbrar tudo aquilo que observas, então eu penso e penso e volto a pensar sem nunca me fartar, de bem, talvez te olhar...
Talvez saiba, talvez não, talvez siga o caminho daquela tão estranha luz resplendida na escuridão. Talvez veja um sim, talvez veja um não daquela tão esperada resposta que lhe deixei nas mãos. E sabes o que isto é? Amor de ingratidão: certo e obscuro, à procura de uma pessoa para manipular com um cínico e simples gesto simpático de mão. E sabes o que isto é? Mentira : vaidosa e serena, busca com cuidado aqueles ao qual a sua ira não é plena. E sabes o que isto é? Solidão: procura severa e arduamente todos aqueles que não merecem o apoio e ternura, ou até mesmo um simples aperto de mão. E sabes o que isto é?  Imperfeição: eu, tu, nós... Porque se só houvesse perfeição qual seria a graça da vida sem nenhum destes sentimentos tão dolorosamente sãos?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vidas

"Ó doçura da vida:
Agonizar a toda a hora sob a pena da morte 
Em vez de morrer de um só golpe" 
Shakespeare

Sonho... e procuro viver a vida. Sonho...tentando encontrar algo que me faça ficar aqui, presa e imunda aos teus poderes, que tão delicadamente usas. Sonho...para ultrapassar essas angústias porque me tanto fazes passar e esses medos que me tanto fazes recear. Sonho...simplesmente sonho, com a vida encantada e os mundos paralelos, a ti e a mim. Sonho...existe outra explicação? Não... Dás-me a energia e o poder para o fazer, dás-me o trono e a coroa para me valorizar, dás-me elogios de loucura para exaltares as minhas virtudes, dás-me a força do cavaleiro, dás-me tudo, sem explicação, com um sabor ardente, picante, fugaz...simplesmente dás-me mas a única coisa que prezo é o teu amor, esse dás?
No outro dia, vi um homem que me fez lembrar-te, estava sereno, cansado e com uma pitada de uma certa calmaria. Era um deles, um viajante, imune ao tempo e à dor, continuava aqui, neste mundo esperando que alguém o salvasse, tal como tu me fazes. Tinha aspecto requintado, como se viesse dos tempos antigos, quando Portugal era ainda um reino de glória, olhava todos, sobrevalorizando-se, tal como tu me fazes. Olhava em redor, talvez buscando pistas de uma ainda  terra perdida, desconhecida, à procura de salvação, talvez sem saber no que este novo mundo já vai, olhava..., para as pessoas, para o cais junto ao passeio do parque onde estava presente, para as mais mínimas coisas, simplesmente olhava, tal como tu me fazes. Era um homem de  classe média, era notória a forma como deslumbrava tudo, tentando decifrar cada retrato físico e psicológico de cada coisa até ao mais minúsculo pormenor, como se nunca tivesse assistido a nada daquilo.
Cheguei ao pé dele involuntariamente, como se os meus pés se arrastassem por si próprios. Quando dei por mim, já estava ao pé dele olhando-o de cima a baixo, tentando perceber quem era, e porque estava de tal maneira tão vistoso e demasiado charmoso que não conseguia desviar os olhos dele, como se estivesse encantada, por pura magia. Foi então que me perguntou a maior das perguntas, a maior de todas, sem demasiado exagero, tal como tu me fazes.
" Que vida é esta?"
Fiquei de repente exausta, como se tivesse acabado de puxar mil carroças com um único braço. Esta pergunta tinha-me desolado de tal maneira que sem querer, voltei a juntar-me mais perto do dito homem, querendo saber mais e tentando procurar resposta à pergunta. 
"Bem, nem eu sei."
Estava tão desnorteada que parecia ver foscos de tonturas bem ao longe, aquela pergunta tinha tocado profundamente no meu coração, de uma maneira ténue, simpática, tentando aconchegar-se no seu berço ,de uma forma alarmante, tal como tu me fazes. Realmente era uma pergunta alarmante, mas afinal "que vida é esta?". Vida despedaçosa sem raça e tronco genuíno, vida calma e serena sem preocupações sentimentais, vida ocupada e extenuante, racista e faminta de desejos, mas que vida é esta?
 Estava confusa, triste, queria desaparecer, tal como tu me fazes sentir.
"Folgo em saber que não sou o único"
Era verdade, eu não sabia. Estava ali a viver a vida, sem razão aparente senão rastos de um sonho perdido feitos por ti. Eu não sabia, e estava certa que por durante muito tempo não iria saber. Cada um de nós é como este viajante do tempo, desamparados, com sonhos por realizar, indecisos, vagabundos deste mundo, sem saber o que fazer, somos viajantes do tempo e um dia mais tarde seremos cavaleiros dos sonhos, falando ao mundo das verdades ditas e não ditas na nossa tenra idade de vida humana por qual todos passámos. Agora somos pessoas, aproveita, amanhã seremos viajantes do tempo, reage, e para a semana seremos cavaleiros brancos, luta e eu prometo que um dia farei tudo tal como tu me fazes