terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Teoria sobre a cegueira

"O essencial é invisível aos olhos" Antoine de Saint-Exupéry



E de repente um súbito olhar caiu em mim, agora sim, tinha a certeza que estava a ser observada, tinha a certeza que não eram meras ilusões.
Desconfortável, vagueei pela sala imunda de pessoas, pessoas alegres, conversando e rindo de todos os males e bondades que observaram naquele dia, tentando porem-se a par das notícias frescas. Davam alegria aquele local.Sabia agora que aquele não era lugar para mim, estava a precisar de conforto e silêncio e toda aquela confusão não iria satisfazer a minha vontade.
"Porque é que te foste meter nisto" era a única coisa em que pensava, para ocupar o tempo que insistia em perdurar. Farta de estar em pé, sentei-me no único banco ainda livre, talvez tenha sido a única coisa em que tive sorte naquela noite. Olhei para a janela que estava a meu lado e senti um enorme desejo de respirar ar puro, ar fresco e limpo, estava saturada de ali estar e queria ter mais liberdade, condicionada naquele luxuoso lugar no qual me encontrava. Imaginei-me lá fora a dançar ao som da brisa sem ter que pensar de que modos deveria estar o vestido, imaginei-me contente, caminhando descalça por entre a relva e saltando de gratidão.
Depressa a imaginação tornou-se na realidade e dei por mim a correr de uma forma deselegante por ente as pessoas que focavam os olhos em mim, mas já nem com isso me importava, só queria liberdade. Admito que foi um acto inconsciente mas do qual não me arrependo. Até porque aquele som que vinha das árvores e aquele cheiro a frescura ocuparam todos os meus pensamentos e memórias que foi impossível recordar-me de todo o embaraço provocado minutos antes.
Ah, como sabia bem aquela emoção, podia sentir-me assim para sempre. Pena era ser de noite e a escuridão esconder todas as minhas expressões, tal como faz com tudo o que encontra. Fiquei a pensar nisso durante o resto do serão. Especulava sobre qual era a intenção dela para fazer tal coisa, esconder. Por momentos comparei-a aos nossos olhos, à nossa visão, aquilo que queremos ver. Tal como na noite, na escuridão, tentamos encontrar algo que brilhe, que chame a atenção e que nos ajude a guiar para onde queremos ir. Outras vezes, como acontece com as estrelas, deixamo-nos levar e permitimos que seja ela a decidir o nosso destino.
Com a visão é a mesma coisa, procuramos sempre algo que brilhe aos nossos olhos, que nos deixe guiar e decida por nós. Talvez a única diferença entre elas é que com os nossos olhos mesmo que seja dia, somos cegos e nunca olhamos para tudo, apenas para aquilo que pensamos que interessa, apenas nos deixamos guiar por aquilo que está à nossa frente e nunca temos o cuidado de pelo menos olhar para o lado.
Resta saber qual é a estrela que nos guia de dia, resta saber se somos nós que decidimos o caminho ou se é a nossa cegueira que nos leva até ele, a que ponto está a nossa escuridão?
Emanada pelo vento e embalada pela brisa continuava estendida na noite, esperando que o tempo passasse. Fechei os olhos e respirei fundo, via, sentia a escuridão à minha frente. Escutei ao longe o som das pessoas a falarem e instintivamente abri os olhos na direcção do que ouvia. O que via já não era a mesma coisa, minúsculos focos de luz apontavam no sentido daquela sala de festas, eram brilhantes e tentadores, eram na verdade o fruto das minhas decisões, sabia que estava certa.
No caminho de volta, ao tentar decifrar porque nunca os tinha visto antes, apercebi-me que estive cega, resta saber por quanto tempo mantive os olhos fechados...


4 comentários: